15/12/2006

UMA NOITE NO BICHO-DA-SEDA

Meu avô gostava de cachaça, futebol e mulher e era invocadíssimo. Pernambucano, de Jaboatão dos Guararapes, filho de italiano com portuguesa, o velho não era mole. Tremendo tampinha, arrumava as maiores arengas, falava alto e tinha um chicote de couro - presente dado, dizia ele, por um cangaceiro do bando de Lampião.
Certa feita, tornou pública a intenção de matar o Toninho Cerezo, depois do Brasil e Itália na copa de 82. Antes já jurara cobrar do Coutinho a barração do Zico em 78. Tirando esses pormenores, e o vinte e dois que ele guardava no armário, era uma flor de pessoa. Me criou desde que eu tinha três anos de idade. Ah! Era cliente da Kalil M. Gebara e propagava isso.
Houve um dia, eu devia ter uns sete anos, em que me levou a um parquinho de diversões na Quinta da Boa Vista, cuja grande atração era uma espécie de bolha de plástico com um colchão imenso, em que a criançada pintava os cavacos, com saltos mortais e o cacete. Não há Daiane dos Santos que salte mais que uma criança encapetada num negócio daqueles.
Depois da quinta vez em que pedi pra ir à bolha, meu avô olhou-me com uma expressão jagunça e falou:
- Você não prefere ir ao bicho-da-seda? É bem mais divertido. Você vai gostar mais. Vamos ao bicho-da-seda. Agora.
Pra quem não sabe, vale o esclarecimento. O bicho-da-seda era um negócio sério. Explico, com uma tremenda saudade, como funcionava a geringonça.
O bicho-da-seda era uma espécie de trenzinho, com bancos pra duas pessoas, que rodava em círculos, em alta velocidade. De súbito, um cortinado cobria o trenzinho e ficava tudo na maior escuridão.
(Pausa pra esclarecer que, nessa hora, as meninas gritavam histéricas e nós, os machos, fechavamos os olhos para não ver o escuro - a mais bonita e infantil das contradições).
Pois bem, quando o cortinado subia, as coisas voltavam ao normal. Até que as trevas desciam novamente sobre o mundo e o pânico retornava. Era terrível, o bicho-da-seda.
Mas voltemos ao parquinho da Quinta. Na hora em que fui entrar no brinquedo, louco pra fazer cocô e xixi ao mesmo tempo, meu avô me falou, com a seriedade de quem revela o terceiro segredo de Fátima:
- Escolhe um banco e senta ao lado de uma menina. Não esquece. Só pode sentar ao lado de uma menina. Se não der, espera a próxima vez.
Cumpri a determinação do velho. Se ele mandou, tá mandado. Sentei ao lado de uma moreninha um pouco mais velha que eu. Devia ter seus dez anos. Era uma uva, a pequena. Ao lado dela, preparei-me pra aventura, respirei fundo e lá fomos nós.
Rezei baixinho, pedi proteção e fechei os olhos. Foi dada a partida, bem devagarinho...e o bicho foi acelerando. Logo, veio a noite sem estrelas e luar, diria um poeta tuberculoso. Eu, que não sou dado a salamaleques líricos, digo que ficou escuro pra cacete.
O berreiro que a criançada fez quando escureceu foi tamanho que chegou a abafar os gritos da torcida do Fluminense, que jogava na mesma hora no Maracanã. Naqueles segundos de trevas completas , todos os medos, fantasmas, demônios e dentistas da minha infância apareceram, terríveis, imensos e assustadores.
Quando terminou a epopéia, as meninas saíram colocando as mãos nos corações e nós, machos, não aparentamos um pingo de medo. Eu, particularmente, saí pisando forte, com cara de mau, segurando o xixi, pra meu avô ficar orgulhoso. Com a moral de quem tinha superado um tremendo desafio, fui impositivo:
- Quero uma grapete. Não senti medo nenhum. Nem um tiquinho, ó.
-Vamos lá, disse ele.
- Antes quero fazer xixi.
- Tá. Mas, olha, homem não pede pra fazer xixi. Fala que quer dar uma mijada. Fica melhor. Meninas fazem xixi e meninos mijam. Nunca esquece disso. Fala de novo, vai, pra treinar.
- Vô, eu quero mijar.
Aprendida a lição (que guardo até hoje) e acertadas as contas com a bexiga, paramos na barraquinha dos refrigerantes e o velho falou:
- E aí, gostou?
- Hum hum...
- Mais nada?
-???
- A menina. Nada?
- ???
-No escuro. Você não fez nada no escuro, enquanto ela gritava?
- Não. Ué, fazer o que?
Fomos embora, o velho com cara de poucos amigos. Perto de casa, virou-se pra mim, passou as mãos nos meus cabelos - eu os tinha! - e sentenciou:
- Não tem problema. Tua vó, tua mãe e tuas tias tão estragando você. Qualquer hora dessas te levam à Socila. Mas, a partir de agora, eu vou cuidar da tua educação mais de perto. Vamos sair mais sozinhos. Deixa comigo, que se tudo der certo, vai dar a maior merda.
Na hora, não entendi picas. Mas hoje, como eu compreendo o velho. Tanto que, se no dia do juízo final, o Filho do Homem me fizer uma pergunta definitiva, daquelas de decidir o futuro da alma :
- Do que você se arrepende?
eu mirarei o Jota Cristo, com o devido respeito, é claro, e responderei convicto:
- De uma certa noite, mestre. No bicho-da-seda da Quinta da Boa-Vista. Quebra esse galho. Dá pra ter sete anos de novo e estar lá?

2 Comentários:

Anonymous Gustavo M disse...

Bom.. especulando que vc tenha uns 35/40 anos, e que na epoca tinha 7

2006 - 40
X - 7
Calculo que o ocorrido foi em 1970 mais ou menos...
"O berreiro que a criançada fez quando escureceu foi tamanho que chegou a abafar os gritos da torcida do Fluminense"

Deve ter sido entao q a torcida fikou cansada de gritar na festa da comemoracao do primeiro titulo nacional do flusao :D a Taça de Prata de 1970 =D
Ou entao um desses cariocas de 60/70/80, que nao cabem comemoracao ne? Ja estamos aostumados :D

aeaeuuahehuaeuaeuae
Enfim... Era so pra nao fikr um comentario so com os dizeres
"Boas festas"

boas ferias ae! abraco

12:24 PM  
Anonymous Diego Moreira disse...

Caralho!!!!
Não consigo parar de rir!!!!
Muito bom!!
Muito bom!!
Muito bom!!

11:46 AM  

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