UMA NOITE NO BICHO-DA-SEDA
Meu avô gostava de cachaça, futebol e mulher e era invocadíssimo. Pernambucano, de Jaboatão dos Guararapes, filho de italiano com portuguesa, o velho não era mole. Tremendo tampinha, arrumava as maiores arengas, falava alto e tinha um chicote de couro - presente dado, dizia ele, por um cangaceiro do bando de Lampião.
Certa feita, tornou pública a intenção de matar o Toninho Cerezo, depois do Brasil e Itália na copa de 82. Antes já jurara cobrar do Coutinho a barração do Zico em 78. Tirando esses pormenores, e o vinte e dois que ele guardava no armário, era uma flor de pessoa. Me criou desde que eu tinha três anos de idade. Ah! Era cliente da Kalil M. Gebara e propagava isso.
Houve um dia, eu devia ter uns sete anos, em que me levou a um parquinho de diversões na Quinta da Boa Vista, cuja grande atração era uma espécie de bolha de plástico com um colchão imenso, em que a criançada pintava os cavacos, com saltos mortais e o cacete. Não há Daiane dos Santos que salte mais que uma criança encapetada num negócio daqueles.
Depois da quinta vez em que pedi pra ir à bolha, meu avô olhou-me com uma expressão jagunça e falou:
- Você não prefere ir ao bicho-da-seda? É bem mais divertido. Você vai gostar mais. Vamos ao bicho-da-seda. Agora.
Pra quem não sabe, vale o esclarecimento. O bicho-da-seda era um negócio sério. Explico, com uma tremenda saudade, como funcionava a geringonça.
O bicho-da-seda era uma espécie de trenzinho, com bancos pra duas pessoas, que rodava em círculos, em alta velocidade. De súbito, um cortinado cobria o trenzinho e ficava tudo na maior escuridão.
(Pausa pra esclarecer que, nessa hora, as meninas gritavam histéricas e nós, os machos, fechavamos os olhos para não ver o escuro - a mais bonita e infantil das contradições).
Pois bem, quando o cortinado subia, as coisas voltavam ao normal. Até que as trevas desciam novamente sobre o mundo e o pânico retornava. Era terrível, o bicho-da-seda.
Mas voltemos ao parquinho da Quinta. Na hora em que fui entrar no brinquedo, louco pra fazer cocô e xixi ao mesmo tempo, meu avô me falou, com a seriedade de quem revela o terceiro segredo de Fátima:
- Escolhe um banco e senta ao lado de uma menina. Não esquece. Só pode sentar ao lado de uma menina. Se não der, espera a próxima vez.
Cumpri a determinação do velho. Se ele mandou, tá mandado. Sentei ao lado de uma moreninha um pouco mais velha que eu. Devia ter seus dez anos. Era uma uva, a pequena. Ao lado dela, preparei-me pra aventura, respirei fundo e lá fomos nós.
Rezei baixinho, pedi proteção e fechei os olhos. Foi dada a partida, bem devagarinho...e o bicho foi acelerando. Logo, veio a noite sem estrelas e luar, diria um poeta tuberculoso. Eu, que não sou dado a salamaleques líricos, digo que ficou escuro pra cacete.
O berreiro que a criançada fez quando escureceu foi tamanho que chegou a abafar os gritos da torcida do Fluminense, que jogava na mesma hora no Maracanã. Naqueles segundos de trevas completas , todos os medos, fantasmas, demônios e dentistas da minha infância apareceram, terríveis, imensos e assustadores.
Quando terminou a epopéia, as meninas saíram colocando as mãos nos corações e nós, machos, não aparentamos um pingo de medo. Eu, particularmente, saí pisando forte, com cara de mau, segurando o xixi, pra meu avô ficar orgulhoso. Com a moral de quem tinha superado um tremendo desafio, fui impositivo:
- Quero uma grapete. Não senti medo nenhum. Nem um tiquinho, ó.
-Vamos lá, disse ele.
- Antes quero fazer xixi.
- Tá. Mas, olha, homem não pede pra fazer xixi. Fala que quer dar uma mijada. Fica melhor. Meninas fazem xixi e meninos mijam. Nunca esquece disso. Fala de novo, vai, pra treinar.
- Vô, eu quero mijar.
Aprendida a lição (que guardo até hoje) e acertadas as contas com a bexiga, paramos na barraquinha dos refrigerantes e o velho falou:
- E aí, gostou?
- Hum hum...
- Mais nada?
-???
- A menina. Nada?
- ???
-No escuro. Você não fez nada no escuro, enquanto ela gritava?
- Não. Ué, fazer o que?
Fomos embora, o velho com cara de poucos amigos. Perto de casa, virou-se pra mim, passou as mãos nos meus cabelos - eu os tinha! - e sentenciou:
- Não tem problema. Tua vó, tua mãe e tuas tias tão estragando você. Qualquer hora dessas te levam à Socila. Mas, a partir de agora, eu vou cuidar da tua educação mais de perto. Vamos sair mais sozinhos. Deixa comigo, que se tudo der certo, vai dar a maior merda.
Na hora, não entendi picas. Mas hoje, como eu compreendo o velho. Tanto que, se no dia do juízo final, o Filho do Homem me fizer uma pergunta definitiva, daquelas de decidir o futuro da alma :
- Do que você se arrepende?
eu mirarei o Jota Cristo, com o devido respeito, é claro, e responderei convicto:
- De uma certa noite, mestre. No bicho-da-seda da Quinta da Boa-Vista. Quebra esse galho. Dá pra ter sete anos de novo e estar lá?

2 Comentários:
Bom.. especulando que vc tenha uns 35/40 anos, e que na epoca tinha 7
2006 - 40
X - 7
Calculo que o ocorrido foi em 1970 mais ou menos...
"O berreiro que a criançada fez quando escureceu foi tamanho que chegou a abafar os gritos da torcida do Fluminense"
Deve ter sido entao q a torcida fikou cansada de gritar na festa da comemoracao do primeiro titulo nacional do flusao :D a Taça de Prata de 1970 =D
Ou entao um desses cariocas de 60/70/80, que nao cabem comemoracao ne? Ja estamos aostumados :D
aeaeuuahehuaeuaeuae
Enfim... Era so pra nao fikr um comentario so com os dizeres
"Boas festas"
boas ferias ae! abraco
Caralho!!!!
Não consigo parar de rir!!!!
Muito bom!!
Muito bom!!
Muito bom!!
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