UMA AVENTURA REVOLUCIONÁRIA
Os dois chegaram a Havana com indômito espírito revolucionário. Brasileiro em Cuba é assim. Em cada esquina uma Sierra Maestra, em cada cidadão um Che. Prometeram, ainda no aeroporto, uma conduta rigorosamente compatível com a Revolução. O mínimo que poderiam fazer era um trabalho voluntário colhendo bananas em Santiago. Sinto dizer que esse vigoroso sentimento de latinidade solidária durou menos de dez minutos.
No que o primeiro rum foi oferecido, ainda no avião, o projeto bananeiro foi para o caralho. Encheram o pote. No primeiro dia na Ilha visitaram a Casa da Música, ficaram alucinados com as garçonetes do El Palenque – suspeitíssimo restaurante de Vedado - e programaram para a manhã seguinte uma viagem a Varadeiro. Contrataram um motorista que prometeu pega-los na porta do hotel em um possante automóvel.
Sete da matina aparece o motorista, em um Ford 1953 absolutamente inacreditável. Para agradar os brasileiros, o cubano levou uma fita com músicas do Brasil. Aliás, permitam-me a correção. Músicas, não. Música. A tal fita continha uma hora de gravação com a mesma canção, O Caminhoneiro, da dupla Roberto e Erasmo.
Como ambos nutriam pelo Roberto Carlos uma simpatia semelhante a do Dalai Lama pelo Mao Tse Tung, imaginem a merda. Faltava coragem para mandar o cubano desligar o som, diante do entusiasmo vigoroso com que o ilhéu bradava aos mares caribenhos os versos do rei e dos quase dois metros de altura do negão.
Mas não há mal que dure tanto. Pararam em um mirante, para tirar fotos e mijar. Foi quando um deles, profundamente mal-humorado, teve a sublime idéia de mandar pra dentro uma garrafa de rum com água de coco. O outro alertou:
- São nove da manhã.
- Foda-se. Eu só tenho condições de ouvir essa merda bêbado. E esse cubano vai tocar essa porra a viagem inteira.
O outro foi obrigado a concordar com a sensatez da proposta. Comprou mais uma garrafa de rum na lojinha para turistas e mandou bala.
Retomada a viagem, O Caminhoneiro continuou sendo a trilha da aventura. Chegaram a Varadeiro e, já embalados, prosseguiram nos trabalhos etílicos com edificante fluência. Pintou de tudo – mojitos, daiquiris, añejos, cervejas e o escambau. Se aparecesse alguém servindo querosene, não recusariam a gentileza, que isso não é papel de homem.
Após um dia intenso, em que um deles cogitou montar uma barraca na praia para vender o final de uma cacetada de novelas brasileiras - eram exibidas de seis da matina à meia-noite - chegou a hora da partida. O cubano apareceu para buscá-los brandindo a fita, a mesma fita, como um estandarte. Tinha a empáfia triunfal de um Carlos Alberto Torres levantando a Jules Rimet.
Nem bem entraram no carro e O Caminhoneiro soou pela nonagésima vez no dia. Mas algo havia mudado. Aos ouvidos de ambos, os acordes do Roberto pareciam a introdução do hino nacional em final de Copa do Mundo. Dez minutos depois, feito bezerros desmamados, comovidos com a descoberta de que o patinho feio era ganso – ou cisne, vá lá- cantavam e soluçavam acompanhados pelo cubano, satisfeitíssimo com o sucesso da homenagem aos amigos brasileños:
- Todo dia quando eu pego a estrada, quase sempre é madrugada e meu amor aumenta mais...
No que o primeiro rum foi oferecido, ainda no avião, o projeto bananeiro foi para o caralho. Encheram o pote. No primeiro dia na Ilha visitaram a Casa da Música, ficaram alucinados com as garçonetes do El Palenque – suspeitíssimo restaurante de Vedado - e programaram para a manhã seguinte uma viagem a Varadeiro. Contrataram um motorista que prometeu pega-los na porta do hotel em um possante automóvel.
Sete da matina aparece o motorista, em um Ford 1953 absolutamente inacreditável. Para agradar os brasileiros, o cubano levou uma fita com músicas do Brasil. Aliás, permitam-me a correção. Músicas, não. Música. A tal fita continha uma hora de gravação com a mesma canção, O Caminhoneiro, da dupla Roberto e Erasmo.
Como ambos nutriam pelo Roberto Carlos uma simpatia semelhante a do Dalai Lama pelo Mao Tse Tung, imaginem a merda. Faltava coragem para mandar o cubano desligar o som, diante do entusiasmo vigoroso com que o ilhéu bradava aos mares caribenhos os versos do rei e dos quase dois metros de altura do negão.
Mas não há mal que dure tanto. Pararam em um mirante, para tirar fotos e mijar. Foi quando um deles, profundamente mal-humorado, teve a sublime idéia de mandar pra dentro uma garrafa de rum com água de coco. O outro alertou:
- São nove da manhã.
- Foda-se. Eu só tenho condições de ouvir essa merda bêbado. E esse cubano vai tocar essa porra a viagem inteira.
O outro foi obrigado a concordar com a sensatez da proposta. Comprou mais uma garrafa de rum na lojinha para turistas e mandou bala.
Retomada a viagem, O Caminhoneiro continuou sendo a trilha da aventura. Chegaram a Varadeiro e, já embalados, prosseguiram nos trabalhos etílicos com edificante fluência. Pintou de tudo – mojitos, daiquiris, añejos, cervejas e o escambau. Se aparecesse alguém servindo querosene, não recusariam a gentileza, que isso não é papel de homem.
Após um dia intenso, em que um deles cogitou montar uma barraca na praia para vender o final de uma cacetada de novelas brasileiras - eram exibidas de seis da matina à meia-noite - chegou a hora da partida. O cubano apareceu para buscá-los brandindo a fita, a mesma fita, como um estandarte. Tinha a empáfia triunfal de um Carlos Alberto Torres levantando a Jules Rimet.
Nem bem entraram no carro e O Caminhoneiro soou pela nonagésima vez no dia. Mas algo havia mudado. Aos ouvidos de ambos, os acordes do Roberto pareciam a introdução do hino nacional em final de Copa do Mundo. Dez minutos depois, feito bezerros desmamados, comovidos com a descoberta de que o patinho feio era ganso – ou cisne, vá lá- cantavam e soluçavam acompanhados pelo cubano, satisfeitíssimo com o sucesso da homenagem aos amigos brasileños:
- Todo dia quando eu pego a estrada, quase sempre é madrugada e meu amor aumenta mais...

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